Arqueólogos guatemaltecos anunciaram na última quinta-feira (25) a
descoberta do enterro de um poderoso rei no sul da Guatemala, que pode
ter propiciado a transição da cultura olmeca para a maia entre os anos
700 e 400 antes de Cristo.
"É o enterro real mais antigo da Mesoamérica e foi encontrado devido às
características que tem e à sua extraordinária riqueza", afirmou
Christa Schieber, coordenadora técnico-científica do Parque Arqueológico
Tak'alik Ab'aj, durante conferência no Palácio da Cultura, na capital
guatemalteca.
Foi encontrado em Tak'alik Ab'aj, 220 km ao sul da capital, três metros
debaixo da terra, sob uma escultura do Parque. Não havia ossos
conservados, mas sim vasilhames e "seis maravilhas figurinhas femininas e
centenas de peças em miniatura de jade azul e verde" com que se fizeram
colares e braceletes costurados sobre tecido ou couro, explicou.
Além disso, havia um saiote ou tapa-sexo, que "pode ser o único bordado
com contas em miniatura de jadeíta encontrado, onde é possível
reconhecer o desenho do bordado", afirmou Schieber.
A arqueóloga afirmou que os especialistas que fizeram a descoberta
denominaram o rei de K'utz Chaman, ou "avô abutre" em espanhol, pelas
relíquias encontradas, especialmente uma figura humana com cabeça de
pássaro no colar, mas este não corresponde ao seu nome verdadeiro na
época por faltar registro epigráfico.
"Esta figura, muito provavelmente um abutre, pode representar uma visão
precoce do título de 'Ajaw'", o criador de tudo (rei), assegurou
Schieber, acrescentando que na Costa Rica e no Golfo do México há
figuras análogas, o que demonstra também a rota comercial de longa
distância que existia na época.
Os arqueólogos calcularam a data do enterro baseados em dados
estratigráficos (das camadas das rochas) e cerâmicos, que foi confirmada
por um laboratório de datação por radiocarbono.
"Este enterro se situa no início ou no amanhecer da era maia, razão
pela qual pode ser considerado o mais antigo enterro real com um enxoval
tão sofisticado encontrado na Mesoamérica", afirmou Schieber.
A costa sul guatemalteca, a princípio, foi habitada por Olmecas (1.500
a.C. a 100 d.C.), considerada a cultura mãe, mas alguns lugares, como é o
caso de Tak'alik Ab'aj, também foram habitados por maias durante sua
expansão no período pré-clássico médio (800 a 300 a.C.).
Os olmecas desapareceram e os maias continuaram desenvolvendo sua
grande cultura, sobretudo no norte da Guatemala, no sul do México, em El
Salvador, Honduras e Belize.
As relíquias e as provas de data denotam que o "avô abutre" ostentava
um poder econômico, político e religioso que apontam que foi ele "quem
cruzou a ponte entre o mundo olmeca e o mundo maia em Tak'alik Ab'aj",
afirmou.
"Para nós é a descoberta mais importante deste ano e o melhor é que
coincide com o início de uma nova era no calendário maia", em 21 de
dezembro, disse à AFP o coordenador administrativo do Parque
Arqueológico, o guatemalteco Miguel Arrego.
O arqueólogo explicou que a civilização Olmeca é considerada a mãe das
culturas na Mesoamérica e inventaram um sistema numérico, mas nunca
chegaram a desenvolver um sistema de infraestrutura piramidal como
fizeram os maias, séculos depois.
"No ano 700 a.C. começou a se manifestar a efervecência de uma nova
cultura, que é a maia, mas a mudança de ideias é gradual, não houve
imposição de novas ideias, mas elas vão se adaptando. Este caso é único
na Mesoamérica, onde há provas de uma transição" de duas cultuas,
afirmou.
"Em Tak'alik Ab'aj há 356 monumentos e 133 deles têm seis formas
distintas de escrita, por isso este parque é a cidade da luz, a Grécia
da Mesoamérica", destacou.
A cultura maia teve seu maior esplendor no chamado período clássico
(250-900 d.C.) até que entrou em uma etapa de decadência no período
pós-clássico (900-1200 d.C). Guatemala, México, El Salvador, Honduras e
Belize preparam celebrações para a mudança de era no calendário maia.
Fonte: UOL











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