Dermatofagia materna: filhote da cecília (Siphonops annulatus) come a pele da mãe
Um comportamento inédito no reino animal chamou a atenção de biólogos: filhotes de espécie de cobra-cega (Siphonops annulatus), um anfíbio enigmático que vive na Bahia, comem a pele da própria mãe para sobreviver.
Uma equipe do Instituto Butantan registrou em foto, tanto em cativeiro
quanto em fazendas cacaueiras próximas a Ilhéus, a alimentação dos
filhotes –a pele da mãe é rica em lipídios e proteínas.
Editoria de Arte/Folhapress
"Assim que nascem, os filhotes ficam em um frenesi que só para comer a
pele da mãe. Em poucos dias, crescem mil e tantos porcento", afirma o
biológo Carlos Jared, responsável pela pesquisa.
Além disso, a mãe alimenta os filhotes com um líquido nutritivo
secretado pela cloaca, que contém açúcar. Os filhotes levam dois meses
para chegar à fase adulta. Ao fim desse período, a mãe perdeu quase 30%
do seu peso no esforço de alimentá-los.
Depois que crescem, os animais tem uma dieta bem menos exigente. Comem
minhocas, insetos e outros invertebrados que encontram debaixo da terra.
São ainda necrófagos: se alimentam de toda a sorte de carcaças.
Em cativeiro, os bichos são carnívoros vorazes, comendo carne bovina, de frango e mesmo filhotinhos vivos de camundongos.
Mais estranho ainda é que a cobertura de muco na pele dos animais é
tóxica contra predadores. Por uma adaptação evolutiva, a mãe para de
produzir tais toxinas exatamente durante a fase "dermatofágica" dos
filhotes.
"Quando não há filhotes, a produção de muco é tão grande que é até difícil segurar um bicho desses", diz Jared.
Existe a chance de novos remédios serem baseados nesse muco tóxico. Um
estudo feito em colaboração entre o Instituto Adolfo Lutz e o Instituto
Butantan mostrou que as moléculas presentes nele podem matar, com
eficiência, tripanosomas e leishmanias, protozoários que causam a doença
de chagas e o calazar, respectivamente.
No entanto, algumas serpentes, como a cobra coral, desenvolveram algum
tipo de resposta fisiológica que neutraliza essas moléculas, fazendo com
que tenham se tornado o principal predador das cecílias.
"O próprio fato do animal ter essa cor escura no meio da terra vermelha
já é um 'aviso' para o predador de que ele é venenoso", diz Jared. No
período de cuidado materno, a cobra-preta perde a cor.
LEVEZA
As "cecílias", nome que esse grupo de animais recebe, são muito leves:
vivem apenas embaixo da terra e podem chegar a meio metro de
comprimento, mas não pesam mais que 260 gramas.
Além disso, seus olhos não formam imagens, apenas respondem à presença
de luz. O animal tem ainda tentáculos –algo ausente em outros
vertebrados– que saem da cabeça, próximos aos olhos, fazendo com que o
animal "sinta" o ambiente adiante.
NÃO É COBRA
Apesar de serem conhecidos como cobras-cegas, as cecílias não são podem
ser chamadas de cobras, já que são anfíbios e não répteis.
Como outros anfíbios, as cecílias dependem da água para se reproduzir e sua pele não tem escamas. Os bichos ainda são pouco conhecidos, segundo os pesquisadores
brasileiros, porque não estão presentes em países do hemisfério norte,
cujos cientistas já exploraram quase tudo que há por lá.
Tais bichos são anfíbios tropicais e aparecem também na África e na
Índia. Eles em nada se parecem com sapos, rãs e salamandras. A forma
lembra a de uma minhoca, só que muito maior.
A reprodução dos bichos –que ocorre em épocas chuvosas– também é
excêntrica: o macho "extroverte" a cloaca, formando um "falso pênis",
que permite uma cópula interna com a fêmea.
Nosso desconhecimento pode trazer perigo à espécie: os levantamentos de
danos à fauna raramente levam em conta esses animais, o que pode fazer
com que sofram riscos não contabilizados.
O habitat natural do animal vai desde a floresta tropical até o
semiárido. No entanto, na plantação cacaueira ele parece ter encontrado
as melhores condições de vida.
Pela observação de campo, Carlos Jared hipotetiza que as cecílias, com a
construção de grandes galerias subterrâneas, são responsáveis pela
macroaeração do solo, sendo benéficas à cultura do cacau.
O cacau é plantado na sombra de árvores nativas, e o solo é mantido
úmido pela camada de folhagens. Segundo Jared, tais locais são um
"santuário" para esses animais.
Fonte: Folha de São Paulo


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