Um artigo publicado na revista científica "PNAS" dá apoio à tese de
que cozinhar comida foi determinante para o desenvolvimento do cérebro
humano.
Duas pesquisadoras da UFRJ, Suzana Herculano-Houzel, colunista da Folha,
e Karina Fonseca-Azevedo, mostraram que uma dieta baseada em comida
crua impôs limitações energéticas aos grandes primatas, criando um
"dilema" para o corpo entre o crescimento da massa corporal e o do
cérebro.
Isso explicaria o fato de que grandes primatas possuem corpos desproporcionalmente grandes em relação aos seus cérebros.
"Outros grupos já haviam indicado que o cérebro custa caro em termos de
energia e sugerido que esse custo teria influenciado nossa história
evolutiva, mas ninguém havia ainda determinado se esse custo era de fato
relevante e limitante em termos fisiológicos", disse Suzana à Folha.
Ela explica que nossas habilidades mais sofisticadas não são o resultado
de o "cérebro ser maior do que deveria, dado o tamanho do nosso corpo",
e sim do número absoluto de neurônios --86 bilhões no cérebro humano.
Suzana já havia mostrado, em artigo científico publicado no ano passado,
que acrescentar neurônios ao cérebro, aumentando o tamanho do órgão,
custa ainda mais caro do que se imaginava em termos de energia.
No estudo publicado agora, as pesquisadoras desenvolveram um modelo que
relaciona o número de calorias ingeridas numa dieta de comida crua à
quantidade de energia necessária para o crescimento da massa corporal e
do correspondente número de neurônios.
Elas conseguiram, dessa forma, estipular o número de horas que grandes
primatas teriam precisado para desenvolver um corpo avantajado e um
número grande de neurônios no cérebro.
Mostraram, assim, que teria sido insustentável para gorilas e
orangotangos, entre outros, com as horas de alimentação de que dispõem,
adquirir calorias em número suficiente para tal tarefa.
Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress
"Humanos e grandes primatas são o resultado atual de duas linhagens
diferentes, com duas estratégias diferentes de investimento energético:
ou um corpo enorme, às custas de abrir mão de um número maior de
neurônios, ou um número grande de neurônios às custas de um corpo
menor", diz ela.
"As duas estratégias são visíveis na linhagem que levou aos grandes
primatas e aos primeiros exemplares do gênero Homo [o do homem]."
MUDANÇA ALIMENTAR
As conclusões do artigo fortalecem a tese do primatologista britânico
Richard Wrangham, que defende que um dos momentos mais importantes da
evolução humana foi a invenção da comida cozida, mais fácil de mastigar,
de digerir e de ter suas calorias absorvidas.
"Sugerimos que foi por causa de uma mudança qualitativa na alimentação
que a limitação energética da nossa linhagem --que já vinha investindo
em mais neurônios e menos corpo-- foi contornada", acrescenta Suzana.
"Além de aumentar a capacidade calórica e tornar as limitações
metabólicas prévias irrelevantes, cozinhar também teria aumentado nosso
tempo disponível para atividades sociais e que demandassem maior poder
cognitivo", escrevem as pesquisadoras no artigo.
Fonte: Folha de S. Paulo


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