terça-feira, 11 de agosto de 2015

Análise de ossos prova que soldados de Napoleão morreram de inanição crônica, em 1812






O nível de nitrogênio dos esqueletos é similar ao de alguém com anorexia. Eles chegaram a comer a carne de animais ainda vivos.
Na prancheta de Napoleão, o plano era relativamente simples: entrar na Rússia pela fronteira com a Polônia — país que ele acabara de ocupar —, marchar até Moscou, tomar a capital e obrigar o czar Alexandre I a assinar a rendição. A vitória daquela invasão, em 1812, parecia certa.


O imperador francês já havia colocado a Europa quase inteira a seus pés e comandava um exército de 690 mil homens. Na madrugada de 24 de junho daquele ano, a armada napoleônica deu os primeiros passos sobre o território russo. Começava ali, no entanto, a derrocada do grande líder. Pouco mais de cinco meses depois, apenas um em cada sete participantes da campanha voltaria vivo.


Os outros morreram pelo caminho: alguns durante ataques, mas a maioria devido ao frio de quase 40 graus negativos do inverno russo, e à fome. Esta última, aliás, foi a causa de morte comprovada dos únicos soldados da campanha que tiveram seus restos mortais estudados até hoje.


Uma pesquisa recém-divulgada pela Universidade Central da Flórida, nos EUA, analisou ossos de 78 dos três mil indivíduos do exército de Napoleão Bonaparte enterrados em Vilnius, capital da Lituânia, território que pertencia ao império russo. O cemitério improvisado foi descoberto em 2001, e a arqueóloga Tosha Dupras começou a análise há três anos. Para ela, não há dúvidas: os esqueletos avaliados trazem provas de que os soldados morreram de inanição crônica.


— O nível de nitrogênio dos ossos tem a exata alteração que seria provocada por um estado de fome crônica. Em contextos modernos, vemos isso em indivíduos que sofrem de bulimia ou anorexia nervosa. Isso nos leva a crer que vários desses soldados faziam carreira ao lado de Napoleão, tendo participado de muitas de suas campanhas, e não apenas na Rússia.


Sabemos que o imperador não fornecia alimentos ao seu exército, obrigando-o a obter comida pelos próprios meios — diz Tosha, que realizou a pesquisa com duas estudantes da UCF, Sammantha Holder e Serenela Pelier. — Esta é a primeira vez que se conseguiram evidências diretas, e não apenas documentação escrita, sobre o que aconteceu com aqueles soldados.


A identificação dos corpos foi possível graças a moedas com a efigie de Napoleão, pedaços de botões e peças do uniforme do Grande Armée encontrados junto aos esqueletos. Alguns deles tinham apenas 15 anos. E, entre os mortos, havia também mulheres. No grupo de 78 corpos selecionados pela arqueóloga, três eram femininos.


— Descobrimos, através de nossos estudos, que essas mulheres não eram locais, e sim ligadas de algum modo ao exército — afirma Tosha, lembrando que o grupo reunia pessoas de várias nacionalidades, como Áustria, Prússia, Croácia, Espanha e Portugal.



NAPOLEÃO ESPERAVA DAR UMA SURRA


As tropas, em geral, eram seguidas por moças que cuidavam das roupas dos soldados e os ajudavam a preparar comida. Algumas eram até mulheres de militares. Elas se viram obrigadas a acompanhar seus homens depois que o império russo e a Grã-Bretanha retomaram relações comerciais, rompendo o bloqueio continental imposto por Napoleão, que viu isso como uma afronta. Ele, então, decidiu se antecipar e pôr em prática uma campanha de ocupação na Rússia, pensando em expandir seu controle até os lados da China.


— Napoleão e os soldados achavam que dariam uma surra, mas a Rússia é um território muito extenso e difícil de ser controlado. Ainda por cima sem ter o apoio da população local, porque a Igreja Ortodoxa era muito forte e controlava o campesinato da época, convencendo-o de que Napoleão era o inimigo. Outro fator é que, como os soldados não levavam comida suficiente, eles saqueavam as aldeias pelas quais passavam. Isso aumentava ainda mais o ódio da população.


E a classe dirigente do império russo também não apoiava as ideias francesas. Se você não tem apoio da autoridade russa, em todos os escalões, não consegue conquistar aquele território, ainda hoje — analisa o italiano Luigi Biondi, professor de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).


Só havia um caminho possível da fronteira da Polônia com a Rússia até a cidade de Moscou, onde fica o Kremlin, a sede do governo. Por isso, os russos sabiam por onde os soldados adversários passariam. Os generais do império da Rússia organizaram ataques-surpresa frequentes, durante toda a travessia, “de modo a nunca deixar Napoleão sossegado”, diz o historiador Biondi.


Além disso, usaram a técnica de “terra arrasada”: a própria população ateava fogo às cidades no caminho dos soldados e as abandonava levando o máximo de comida possível. A intenção era dificultar a possibilidade de abrigo e de alimentos para as tropas napoleônicas.


O ápice dessa estratégia ocorreu em Moscou. Lá, Napoleão chegou a conquistar o Kremlin, mas, quase ao mesmo tempo, a capital começou a arder em chamas. Napoleão e seus soldados viram a cidade se destruir em quatro dias de fogo e, ironicamente, foram eles os responsáveis por salvar o Kremlin, onde se abrigaram.


— Na época, quase tudo em Moscou era feito de madeira, o que fez com que ela queimasse logo — explica Biondi.



O ÁRDUO CAMINHO DE VOLTA



O imperador percebeu que não havia mais sentido ficar em Moscou. Com as tropas esfarrapadas e esfomeadas, e sem provisões à vista, em 19 de outubro ele decidiu tomar o caminho de volta. O exército foi jogado no mesmo terreno arrasado pelo qual já havia passado.


Percorreu, novamente, mais de mil quilômetros. Desta vez, no entanto, o cenário foi ainda pior porque o rigoroso inverno russo batia à porta. Diários de soldados mostram que eles chegaram a comer a carne dos próprios cavalos e dos companheiros mortos, ambas ingeridas cruas. O soldado Adrien Bourbogne, que mais tarde publicaria suas memórias, escreveu que os homens também tiravam nacos de carne de animais ainda vivos — com a pele adormecida pelo frio, eles não reagiam.


— Os militares do império russo ainda os atacavam na retaguarda, tornando a volta mais difícil. Era como ser empurrado para fora do país pelo exército adversário — afirma o professor da Unifesp.


As tropas maltrapilhas alcançaram a Polônia em 14 de dezembro. Desnutridos e irreconhecíveis, apenas cem mil soldados compunham as legiões outrora “invencíveis” de Napoleão. O sonho de conquista da Europa terminava. Menos de dois anos depois, o líder francês estaria no exílio na Ilha de Elba, na Itália, da qual retornaria para lutar sua batalha final: Waterloo.

Fonte: O Globo

Um comentário:

Marcel Fox disse...

Dizem os historiadores (veja o livro de Laurentino Gomes "1808"), que se Portugal não tivesse transferido a corte para o Brasil e tivesse resistido ao ataque poderia ter grandes chances de vitória devido exatamente à fragilidade dos soldados esfomeados. Acho que esta notícia informa mais um sinal de que isso seria possível.

Abraço!

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