segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

BA: Uma ilha, um casarão, muitos fantasmas

 Fernando Vivas | Ag. A TARDE

 Casarão histórico na Ilha de Cajaíba deve virar museu temático


Do cais de São Francisco do Conde, a ilha de Cajaíba avista-se tão próxima que quase parece possível chegar à pé. 


Depois de tomar um barquinho, que leva pouco mais de cinco minutos, a reação automática é erguer a cabeça para ver o topo das majestosas palmeiras imperiais que enfileiram-se à frente da casa. Nasceram muito antes de nós todos que estamos aqui, com sorte, nos sobreviverão.


A construção histórica foi tombada pelo IPAC em 2004. A fachada, com dez janelas e escadaria dupla, mantém-se bem preservada. Já andar por lá é como estar num filme meio de época, meio de terror. Parte do assoalho do piso e do teto cederam. 


Nos poucos móveis que permanecem no casarão, o estado de conservação é igualmente ruim, fazendo par no quadro geral de desolação com a sujeira produzida pelos muitos cachorros e gatos que vivem ali.


Do casarão dá para chegar à Praia do Sodré por uma trilha de cerca de 3,5 Km. O parque ecológico situaria-se nos arredores. 


Alguns moradores da região já a aproveitam, antes mesmo da "inauguração". Apesar da faixa de areia estreita, o lugar guarda uma beleza bucólica. Para preservar a impressão, a dica é olhar sempre em direção ao mar, já que nas proximidades da mata acumula-se todo tipo de lixo.


Na região, corre a lenda de que a ilha é assombrada pelos espíritos dos escravos torturados impiedosamente por Fernão Rodrigues Castelo Branco, o primeiro e único Barão de Cajaíba, que dali comandou as tropas legalistas no processo de independência da Bahia e enfrentou a revolta da Sabinada.


Os moradores gostam de repetir histórias para provar sua crueldade, como a vez em que teria entregue numa bandeja os seios de uma escrava elogiados algumas horas antes por um visitante. O historiador Rodrigo Lopes acredita que uma parte disso é falação, a outra, não. 



"Há um documento, uma carta da Condessa de Barral, grande senhora da elite baiana, à Dom Pedro II, na qual ela diz que o Barão de Cajaíba era um homem de fino trato, mas conhecido também pela truculência com que tratava os escravos". Ele duvida, porém, que o Barão tivesse o costume de matá-los afogados, como também se diz, já que eram bens caros.


Bruno Alves, 30, um dos vigilantes do casarão, construído em meados de 1815, jura que já viu fantasma. Numa noite de lua cheia, avistou um homem se balançando em uma cadeira por detrás da janela. 



Sentiu um arrepio pelo corpo que eriçou a nuca. Com a manga da camisa, esfregou os olhos. Quando os abriu de volta, o homem não estava mais lá. "O que eu fiz foi rezar. O morto só precisa disso, de reza". 



Se entre os fantasmas vagar pela ilha o espírito do Barão de Cajaíba, certeza que está devastado pelo estado da sua antiga casa. Quase dá para ouvi-lo berrando enfurecido. Nada como o tempo. Não faz mais medo.




Fonte: A Tarde

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